Boletim Bimestral - Edição Nº 29 - Setembro/Outubro

 

Report on Fraud
Adaptado por: Vivian Bialski

Eleanor Carter soluçava enquanto explicava aos investigadores que não tinha a menor idéia que seu marido estava cometendo fraude contra a empresa em que trabalhava. Em cinco anos, ele havia desviado mais de US$ 4 milhões. Ela acreditava que a melhoria no estilo de vida do casal era fruto de bônus recebidos e dos bons investimentos no mercado de ações.

“Henry nunca me incluía nas suas decisões de negócios”, ela explicou aos contadores, que queriam entender como o casal vivia muito acima do nível que seria possível, dado o salário de seu marido. "Henry cuidava de todos os detalhes financeiros, eu simplesmente acreditei que as coisas estavam indo muito, muito bem”. O casal Carter morava numa casa que valia mais do que US$ 1 milhão, quase quatro vezes o valor da casa em que moravam há cinco anos. Compraram uma luxuosa casa num condomínio à beira de um lago, perto de Toronto. Passavam férias caríssimas na Europa, na Austrália e na Ásia, coisas que, há cinco anos, o casal nunca poderia fazer. Também compraram várias obras de arte.

O novo estilo de vida do casal teve início enquanto Henry ainda trabalhava na mesma empresa de desenvolvimento imobiliário em que passara os últimos 15 anos, como controlador. “Eu não sabia quanto Henry ganhava”, disse a viúva.

Negar conhecimento é algo comum em situações de fraude como essas. Nesse caso, o marido e, com maior freqüência, a esposa alegam não ter idéia de onde surgiram os recursos para financiar uma mudança no estilo de vida tão radical e abrupta, sempre atribuindo a boa fortuna a motivos legítimos. Com freqüência esses protestos são verdadeiros.

O desafio é saber qual a verdade em cada caso. Provar cumplicidade é crítico quando a vítima ou a empresa de seguros procura recuperar parte das perdas ou, ao menos, confiscar alguns dos bens comprados com recursos desviados.

O caso Carter tinha três complicações: Henry Carter faleceu de ataque cardíaco logo após ter sido descoberta a fraude, as duas casas estavam no nome de Eleanor e o dono da empresa onde Henry trabalhava sentia pena de Eleanor, que considerava ser inocente e, além de tudo, uma amiga.

“Ela e as crianças sofreram o bastante, deixem-nas em paz”, disse ele aos investigadores.

O advogado da empresa e os investigadores discordaram, achando que a história de Eleanor estava repleta de incoerências e que ela estava mentindo. Pediram permissão para tentar provar seu caso, mesmo porque Eleanor havia colocado a casa no lago e os objetos de arte à venda (ela explicou aos contadores que as lembranças associadas eram tristes). O dono concordou, desde que os investigadores agissem discretamente.

Dois investigadores visitaram a casa que estava à venda, fazendo-se passar por potenciais compradores. Um deles fez questão de passar alguns minutos a sós com Eleanor e logo puxou conversa. A investigadora elogiou a decoração e os objetos de arte e Eleanor começou a descrever tudo que ela havia feito para embelezar o lar.

A investigadora disse: "não entendo nada disso, eu deixo meu marido tomar todas as decisões, especialmente sobre dinheiro.”

“Eu não", disse Eleanor. "Eu cuidava de tudo, eu sabia de onde vinha cada centavo e como estava sendo gasto".

“Como?” Perguntou a investigadora. Carter explicou que estava estudando contabilidade à noite, numa faculdade perto de sua casa.

Embora isso não fosse prova contundente, afinal de contas Eleanor poderia estar simplesmente contando vantagem, essa conversa deu novo impulso às investigações. Os investigadores entraram em contato com várias galerias onde Eleanor havia feito compras e descobriram que ela comprava as obras através de uma empresa registrada em seu nome de solteira. Uma verificação dos registros de imóveis mostrou que ela era proprietária de vários imóveis que os investigadores desconheciam.

De posse desses dados, o advogado da empresa fraudada obteve um mandado para congelar os ativos de Carter. Eleanor foi confrontada e, embora tenha negado tudo, entrou em contato com os advogados depois de alguns dias para negociar um acordo.

Quando os cônjuges são envolvidos nas fraudes

A recente onda de repressão à fraude empresarial deve levar a um exame mais rigoroso do papel exercido pelas esposas (e maridos).

Um exemplo seria o caso de Lea Fastow, a esposa do ex-CFO da Enron - Andrew Fastow. Ela começou a cumprir uma sentença de um ano de prisão, depois de ter admitido que falsificou sua declaração de imposto de renda, tendo mentido sobre os rendimentos oriundos de uma transação ilegal da Enron, tentando disfarçar o dinheiro como "presente".

Normalmente, réus primários condenados por crimes de "colarinho branco" são enviados a prisões de segurança mínima, mas o Juiz David Hittnber, de Houston, enviou Fastow para um centro de detenção urbano bastante "pesado". O juiz recusou-se a aceitar a sentença de 5 meses proposta pela promotoria.

“Os crimes dos quais Fastow foi acusada não tinham relação direta com as operações da Enron, mas foram usados para pressionar seu marido a colaborar com os investigadores", especulou o jornal Houston Chronicle. Andrew Fastow declarou-se culpado de dois delitos de conspiração e admitiu que gerenciava esquemas e parcerias destinados a fazer as finanças da Enron parecerem sadias enquanto ele se enriquecia às custas da empresa.

Andrew foi condenado a um máximo de 10 anos de reclusão e a entregar US$ 24 milhões aos tribunais, além de ajudar as autoridades com outros casos.

Assim, todos que colaboram para uma fraude hoje em dia são considerados alvos razoáveis para investigadores e promotores, não importa o sexo, não importam as lágrimas.

 

 

 

 

 
A fraude do controller

 

 

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